A LÍRICA AFIADA DO LITORAL

Os Rappers @alexvpoficial e @guetus47, ambos moradores de Camboriú, lançaram ontem a música intitulada “Litoral”, com produção musical e refrão de @thugdapesadaoficial, também artista da região. O vídeo clipe ficou nas mãos de @tjfotoevideo.

A música faz parte do novo projeto dos dois artistas, com uma proposta consciente na atualização do cenário e das novas narrativas possíveis dentro do “Rap”.

O subgênero do Rap, o famoso “Trap”, onde se encaixa a música lançada pelos artistas de Camboriú, vem alcançando espaço nas plataformas digitais e no cotidiano da juventude, por sua conexão com as vivências dos jovens da era digital, mas não deixando de lado as problemáticas abordadas pelos artistas precursores no Rap das décadas de 1990 e 2000, que lutavam pela promoção da sua cidadania plena, quando o país atravessava o seu processo de redemocratização, depois do fim da Ditadura Cívico Militar (1964 -1985).

A juventude buscou seu espaço e o Rap chegou com Thayde e DJ Hum, Racionais mc’s, Detentos do Rap, Gabriel o Pensador, Black Alien e Speed Freaks, MV Bill, Sabotage e tantos outros, que lutaram, a partir das suas rimas ácidas, pelo acesso da favela as promessas da nova constituinte cidadã de 1988. A busca era por segurança, saúde e educação de qualidade, trabalho, comida na mesa e moradia. Entretanto, mesmo em contextos e tempos históricos diferentes, 30 anos depois, ainda é possível identificar que alguns problemas do presente são consequências daqueles que não foram solucionados historicamente, como o racismo estrutural e suas mazelas, resquício da escravidão, que produz naturalizações do preconceito dentro da sociedade e um retrocesso imensurável, a falida guerra as drogas, que causa a morte da juventude brasileira, a falta de oportunidades no mercado de trabalho e a crise política pela qual atravessa nosso país e a sua frágil democracia. Depois de 199 anos da emancipação política do Brasil, ainda é possível enxergar permanências daquele movimento de caráter elitista com interesses de uma única classe dominante. Como não foram lembrados no processo de independência em 1822 e na primeira constituição brasileira, promulgada em 1824, a população negra e pobre desse país parece viver mais próximo daquela constituinte do que da chamada Constituição Cidadã de 1988, se pensarmos ainda no quanto o Brasil precisa avançar nas políticas públicas que atendem a população nas suas necessidades básicas. Mas não é só pelo básico que essa população luta, é também pela possibilidade de acesso aquilo que foi negado historicamente e que só passavam por suas mãos indiretamente, como cita o rapper Renan Inquérito, na sua música intitulada “Anônimos”:

“Trampando no posto sem nunca ter um carro; Construindo as casas e pagando aluguel; Asfaltando rua e morando no barro; Existindo, além dos números do Excel”. Mas quem trampa também quer seu carro, asfalto de qualidade e casa própria, a luta é por esse acesso também. Fica evidente que a luta pela emancipação do povo é constante, e sempre esteve no trabalho dos artistas do Rap nacional, e com uma nova perspectiva, nos artistas do rap atual, incluindo os artistas da região.

Com influências que vão de Racionais mc’s a Tim Maia, passando por RZO e James Brown, além de outros artistas da cultura preta brasileira e estrangeira, os rappers de Camboriú também buscando essa constante emancipação individual, fazem música das suas experiências e leituras do mundo, construindo novas narrativas sobre o cotidiano da periferia e da juventude da região.

Para entendermos o processo de escrita, produção e gravação da música, conversamos e buscamos as origens da participação dos artistas no movimento Hip-Hop da região. @alexvpoficial, 29 anos e @guetus47, 30, se conheceram em meados de 2012, no chamado “culto do Rap”, onde jovens se reuniam em uma igreja da região, que tinha como proposta aproximar a religião da cultura Hip-Hop.

Antes disso, os músicos já tinham grande influência da massiva reprodução do rap nas periferias da região, conforme nos falou @guetus47 em entrevista, “o rap está nos ouvidos da população periférica antes mesmo do favelado saber o que é o movimento”, na primeira década deste século, era quase impossível não escutar rap na periferia, seja direta ou indiretamente. Assim, surgiu o seu apreço e vontade de participar do movimento. “Eu comecei a escrever quando tinha 15 anos, mas a cantar mesmo foi a partir de 2012”, conclui. Já @alexvpoficial, quando perguntado das suas influências e chegada ao movimento, nos contou o seguinte:

“iniciei minha caminhada no Break, na dança, em meados de 2008. Depois disso, complementa dizendo que começou a frequentar eventos na região e se envolver com os outros elementos da cultura Hip-Hop, o grafite, o DJ e, com mais intensidade, o MC (Mestre de Cerimônia).

Decidiram, depois de algumas gravações no estúdio que o @guetus47 montou na garagem de casa, formar um grupo de rap, deram o nome de VariosparsA, com o qual projetaram suas músicas para o cenário do rap catarinense. Nessa mobilidade entre os cultos e as ruas, começaram a tocar em eventos da região e, para além da música, se disponibilizaram a ajudar as causas que o Hip-Hop defende: inclusão, inteligência para entender o contexto ao qual está inserido e a projeção da juventude periférica para as mais distintas possibilidades profissionais e pessoais, superando os obstáculos que surgem pelo caminho. Foram fomentadores de projetos dentro de clínicas de recuperação e prevenção contra as drogas, arrecadação e distribuição de alimentos para famílias necessitadas, além de intervenções no CASEP de Itajaí – Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório, que atende menores infratores. Todos esses projetos utilizando do rap como instrumento de mudança.

Segundo @AlexVPoficial, “o trabalho dentro do CASEP foi um dos mais satisfatórios e recompensadores dessa trajetória”, onde resultados foram colhidos, como o caso que nos conta sobre a ligação recebida de um dos jovens que, a partir da influência do rap e da intervenção dos artistas, ligou para eles para agradecer e contar que tinha saído, estava seguindo o caminho da igreja e ocupando o seu lugar como cidadão. @Guetus47, afirma a ideia dizendo que “o rap nos ensina que é sempre possível buscar o melhor, tanto na fase do gospel, quando a juventude buscava sair do crime, voltar para a igreja, “trampar”, como agora. Nós sempre estamos buscando melhorar, e agora também a considerar novas possibilidades com essa nova caminhada musical”. Movimentado a cabeça com sinal de positivo, @AlexVpoficial complementa dizendo que “a ideia é mostrar que existem outras possibilidades. Sabemos que a música é apenas um caminho, mas queremos também mostrar que é possível o jovem periférico acessar um diploma, ser empresário, buscar outras formas de conquista a partir das suas habilidades. E ainda, entender como o sistema funciona, como podemos usar ele ao nosso favor, naturalizar a vitória do favelado. Para a favela vencer, é um conjunto de favelados, não só um, não só nós. Pensar no coletivo é o rap.”
A música “Litoral” é parte desse pensamento, é a representação dessa trajetória de 10 anos dos rappers no movimento, essa nova roupagem musical, essa nova pretensão social, de impactar, buscando estudar um mercado musical cada vez mais amplo, também resultado do amadurecimento dos artistas e das suas vivências, colocam no debate de outras questões formadoras da juventude periférica da região, saindo da narrativa do crime e da violência que está massivamente divulgado pela grande mídia.

O objetivo seria então legitimar as trajetórias daqueles invisibilizados por uma das sociedades mais desiguais do mundo, demonstrando que o dinheiro também cabe no nosso bolso, por que não? Tudo aqui apontado, é fruto da construção de uma trajetória, de muitos obstáculos vencidos, de readaptações que são frequentes nas favelas brasileiras que, ensinam entender o mundo, buscar seu lugar como cidadão, contribuindo, mas também colhendo resultados. Como falou o rapper paulistano Dexter, em recente entrevista para o canal do filósofo Sílvio Almeida, “termos a vida é uma coisa, viver a vida é outra. E o Hip-Hop nos ensinou a viver”. E salva vidas.

Jacson dos Santos Historiador rjacson.eu@gmail.com
@AlexVPoficial, @Thugdapesadaoficial e @Guetus47

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